7 Frases de Clarice Lispector Que Ela Realmente Disse (Com Fonte)
A internet inventa frases de Clarice todo dia. Estas 7 são reais, com livro e página — e uma famosa que ela nunca escreveu.
A internet atribui frases inventadas a Machado de Assis todo dia. Estas 7 são reais — tiradas de Dom Casmurro, Memórias Póstumas e outros textos.
Machado de Assis morreu em 1908, mas nunca para de “falar” nas redes sociais — muitas vezes coisas que jamais escreveu. O problema não é só desinformação: frases inventadas apagam o Machado real, que é muito mais interessante do que qualquer motivacional. Reunimos 7 frases que ele comprovadamente publicou, com a fonte de cada uma. E, no fim, uma falsamente atribuída que você vai reconhecer.
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas.” Dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
Antes de qualquer capítulo, Machado dedicou o livro ao verme. A ironia está calibrada ao milímetro: “saudosa lembrança” é o tom das dedicatórias sentimentais do século XIX. Aqui, o destinatário é a decomposição. O leitor já sabe que o narrador está morto — e que o autor não tem ilusões sobre a posteridade.
“Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.” Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), “Ao leitor”
No mesmo livro, em “Ao leitor”, Machado entrega o método: humor e tristeza misturados, sem que um anule o outro. Quem lê os romances dele percebe que esta frase não é figura de linguagem — é uma instrução de uso. A “galhofa” é o escárnio com que trata os personagens; a “melancolia” é o que fica quando o riso passa.
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.” Quincas Borba (1891), capítulo VI, lema do Humanitismo
A frase vem do personagem Quincas Borba, que inventa uma filosofia chamada Humanitismo. A lógica: na luta pela comida (simbolizada pelas batatas), vence o mais forte. Os mortos financiam o triunfo dos vivos, e a natureza aprova. É uma paródia do positivismo e do darwinismo social da época, apresentada com cara de sistema filosófico sério. A ironia passou por cima de vários leitores contemporâneos de Machado — o que provavelmente era parte do plano.
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), capítulo CLX (“Das negativas”)
O narrador encerra o livro contando o que não fez. Não teve filhos, então não passou a ninguém “o legado da nossa miséria.” É um anticlímax calculado: a vida de Brás Cubas termina não com conquistas, mas com ausências. Machado transforma essa lista de negações no fechamento mais comentado de qualquer romance brasileiro — e faz isso com exatamente uma frase.
“Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.” Dom Casmurro (1899), capítulo I (“Do Título”)
No primeiro capítulo, o narrador Bentinho conta que um jovem poeta no trem o chamou de “Dom Casmurro.” Em vez de se ofender, ele adota o apelido e explica que usa a palavra no sentido popular, não no dicionário. É um narrador que controla a própria narrativa desde a primeira linha — e isso importa muito quando você chega à pergunta sobre Capitu.
“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que eram aqueles olhos de Capitu.” Dom Casmurro (1899), capítulo XXXII (“Olhos de ressaca”)
Machado dedica um capítulo inteiro — “Olhos de ressaca” — à tentativa de descrever os olhos de Capitu. O narrador pede socorro à “retórica dos namorados” e não encontra metáfora suficiente. No fim, compara os olhos ao mar em ressaca: arrastam quem olha para dentro. É uma das passagens mais citadas da literatura brasileira — e, propositalmente, a descrição nunca fecha por completo. Assim como o romance todo.
“O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.” Ensaio “O Instinto de Nacionalidade” (1873)
Antes de virar o romancista consagrado, Machado escrevia crítica literária. Neste ensaio de 1873, ele argumenta que um escritor não precisa descrever a paisagem local para ser “brasileiro” — o que importa é o olhar, a perspectiva, o pertencimento. Foi uma ideia polêmica na época e ainda alimenta debates sobre identidade cultural e literatura nacional.
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“A vida é feita de escolhas. Cada passo define quem você é.”
Essa — e variações infinitas dela — circula com o nome de Machado de Assis em posts de motivação. Nenhuma tem fonte documentada. O estilo já entrega: Machado não escrevia frases otimistas sobre autodeterminação. O narrador de Memórias Póstumas sequer controla o próprio epitáfio. Antes de compartilhar uma citação, procure em qual livro ou texto ela aparece.
Política da Revista Destaque: toda citação publicada aqui tem fonte documentada. Quando uma frase popular é de atribuição incerta, avisamos o leitor. Saiba mais na nossa política editorial.
As mais conhecidas e verificadas incluem a dedicatória e o encerramento de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o lema 'Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas' de Quincas Borba (1891) e passagens sobre Capitu em Dom Casmurro (1899).
É o motto da filosofia fictícia chamada Humanitismo, criada pelo personagem Quincas Borba. A ideia é que, na disputa pelos recursos (simbolizados pelas batatas), vence o mais forte — e a natureza não se preocupa com os perdedores. É uma paródia do darwinismo social do século XIX.
Não no sentido moderno. O estilo de Machado é irônico e pessimista — seus narradores frequentemente zombam de ilusões e conquistas. Frases otimistas atribuídas a ele nas redes sociais, sem fonte documentada, são quase sempre apócrifas.
W. Amorim · Editor-chefe
Editor-chefe da Revista Destaque. Especialista em cultura pop, tecnologia e tendências digitais desde 2024. Pesquisa e verifica citações históricas antes de publicar.
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